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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

O meu PAI

Foi um rapaz alegre e cheio de vida. Alto, elegante e bonito, com uns magníficos olhos azuis. Era popular entre as moças do seu tempo. Casou já tarde, com a mulher  a quem entregou o coração até hoje - a  minha mãe.

A vida nunca foi fácil, sempre com muito trabalho, mas nada faltou à sua família. Tinha sempre uma piada, uma anedota ou uma graça para nos contar. Com um sentido de humor apurado, fazia-nos rir nas situações mais inesperadas. O meu pai aprendeu a ler sozinho e foi nos seus joelhos que aprendi as primeiras letras. Foi com a Cartilha João de Deus, que ele recitava de memória. Ao fim de pouco tempo já fazíamos um dueto.

Quis uma vida diferente para a única filha e livrá-la do trabalho duro dos campos. Com imenso sacrifício, porque era muito caro, permitiu que frequentasse um colégio privado, o único estabelecimento de ensino da terra que dava continuidade aos estudos. Mais tarde ficámos a viver em Setúbal e tudo ficou mais fácil. Foi com orgulho que recebeu o meu diploma e foi com  gratidão que lho pus nas mãos. Deram-me tudo o que podiam dar, esquecendo-se de si, abdicando de tantas coisas que poderiam ter feito em proveito próprio, para que eu tivesse uma vida melhor. A isso chama-se amor.

O meu pai, que sempre gozou de perfeita saúde, perdeu a marcha de repente, apenas com cinquenta e seis anos. Os médicos não tinham explicação para o facto. Esteve internado durante três meses no Hospital de S. José, em Lisboa. Todos dias o íamos visitar. Durante a semana ia a minha mãe, ao fim de semana ia eu. Naqueles olhos tão vivos e alegres começou a aparecer uma sombra de tristeza. Fez muitos exames e tratamentos, até chegarem à conclusão de que sofria de mielopatia grave na coluna cervical e necessitava de cirurgia. Assim foi. Lembro-me do dia em que foi operado. Fiquei o tempo todo à porta, à espera de notícias. Ao fim de cinco horas apareceu o cirurgião a dizer que tiveram alguns problemas com inserção dos tubos, mas a cirurgia tinha corrido bem. Mas eu queria vê-lo. Tinha de o ir ver. Então fiz uma coisa que ainda hoje me faz arrepiar, porque sou contra. Nesse dia, pela primeira e única vez na minha vida, meti uma nota na mão do porteiro para o poder espreitar. Vi-o de longe, através do vidro, estava a abrir os olhos, como se tivesse regressado de uma grande viagem. Não deu pela minha presença. 

Voltou para casa, fez fisioterapia e ficou a andar. Na altura fomos avisados que corria o perigo de mais tarde ficar numa cadeira de rodas. A sua marcha era um pouco desengonçada, como se não tivesse força nas pernas, mas era autónomo e nunca o vi desanimado. Foi pelo seu braço, caminhando devagarinho, que cheguei ao altar no dia do meu casamento. Ficamos a viver muito perto e os meus pais ganharam um filho.

Há sete anos veio outro problema, desta vez foi uma neoplasia no colón . Mais uma cirurgia, internamento, tratamentos complicados, mas daquela boca nunca se ouviu uma queixa. Esta situação foi ultrapassada, mas com o avançar da idade aconteceu aquilo que os médicos tinham previsto. O meu pai perdeu a marcha e perdeu completamente a autonomia. Sou eu que o visto, deito-o e levanto-o, dou banho, faço a barba e corto o cabelo. Pois, porque ele gosta de se ver ao espelho e sentir que tem um aspecto agradável.

Como  passa o tempo sentado ou deitado começaram a aparecer as terríveis escaras . O problema está a ser resolvido com uma almofada de gel, para quando está sentado e um colchão com compressor, para ser massajado durante a noite. Vem um enfermeiro a casa, três vezes por semana, para lhe fazer os tratamentos. Nos outros dias sou eu a enfermeira. Felizmente agora só tem duas feridas a necessitarem de cuidados, as outras já estão completamente curadas.

E assim é a nossa vida. Antes de ir para o trabalho vou levantá-lo, tratar de tudo e deixo-o muito quentinho a ver televisão ou a ler. Mais tarde vem uma pessoa da família ver como estão. O almoço fica no termo e a minha mãe ainda consegue reparti-lo pelos dois. Pouco depois chego eu. É nessa altura que aproveitamos para conversar. Falamos da nossa vida, do meu trabalho, das suas recordações, dos tempos em que esteve na tropa e andou a calcorrear pelas ruas de Lisboa. Também falamos das fases da vida e da morte. Brincamos com isso. Ele diz-me que vai à minha frente, porque é mais velho; eu respondo que já que é assim, me dê uma ajudinha do lado de lá. Depois ele sorri e diz-me: - Fica descansada que lá te guardarei um bom lugar. E eu acredito.

À noite é ao contrário, tenho de o preparar para se deitar.

Quando apago a luz e digo até amanhã, nunca o meu pai deixou de dizer - até amanhã e obrigado. A sua boca não se abre para se queixar da vida, mas abre-se tanta vez para me dizer - tenho tanta pena pelo trabalho que te estou a dar. Custa-me tanto. Tens tanto trabalho comigo. Eu fico sem palavras porque não quero deixar de ter este trabalho. Quero ouvir por muito tempo - até amanhã  e obrigado

 

Este é o olhar do meu querido Pai, que tem iluminado a minha vida.

Com a sua autorização, tenho o gosto de apresentar o homem que me ensinou que a palavra e a honra são o melhor património  de uma pessoa.

 

 


publicado por Maria às 19:48

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5 comentários:
De Andreiazinha a 19 de Fevereiro de 2008 às 21:43
Depois de ler este post... fiquei com uma lágrima no olho! Lembro então que existem mesmo coisas muito importantes nesta vida!
Um beijinho nos dois
Andreia Pereira


De Infiel a 19 de Fevereiro de 2008 às 22:03
boa noite

adorei ler o teu post, testemunho de um verdadeiro homem e o orgulho de uma filha, de uma familia
desejo-vos o melhor de tudo, muita força e renovação de alegria e que possas continuar a ouvir essas palavras e ele as sentir

um abraço e um sorriso por saber que a felicidade familiar é possivel e que a palavra e a honra ainda são valores respeitados e sentidos
Obrigado


De refoias a 19 de Fevereiro de 2008 às 22:55
Para um homem sofredor de tão grandes infortúnios como os seu pai, não deve deixar de ser profundamente reconfortante ter uma filha assim que olha por ele com tanta dedicação e que lhe dedica tão grande amor. Pelo que descreve, merecem-se um ao outro. Obrigado pelo testemunho do que deveria a relação entre todos os pais e filhos.
Um abraço de solidariedade e boas melhoras!


De DyDa/Flordeliz a 22 de Fevereiro de 2008 às 00:10
Possas...Possas!
Fiquei triste e depois fiquei feliz. Os dois acabam por receber.
Ele, a sua atenção, o carinho e o cuidado. Você a gratidão nem que seja através do seu olhar. E ele tem uns olhos lindos, e pelo que você descreve merece ser um sorriso feliz (mesmo estando limitado fisicamente). Tomara consiga dar-lhe a qualidade que ele merece e que ele possa pronunciar essas palavras mágicas que a deixam preenchida como filha e ser humano.
Bem-haja! Felicidades!


De kuka a 23 de Fevereiro de 2008 às 08:43
É uma narrativa muito bela e ternurenta, sinto-me comovido. Com filhos assim, não há pais infelizes


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