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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

HOMENAGEM À MINHA AVÓ

Lembro-me bem dela. Chamava-se Quitéria, sempre aprumada e decidida. Usava um carrapito de cabelos grisalhos e quase sempre o lenço atado ao pescoço. Tinha a passada rápida, o olhar directo que parecia ver para além do que lhe queríamos mostrar. Vestia-se de cinzento, sempre com um grande avental engomado. Era uma pessoa diferente. Os outros pediam-lhe conselhos, respeitavam-na e temiam-na. Quando era criança, as meninas não iam à escola, muito menos as meninas que viviam no meio das serras. Mas ela aprendeu a ler. Sozinha! Contou-me que guardava os jornais que vinham a embrulhar as compras, depois perguntava aos rapazes que iam à escola o nome das letras e começou a juntar os sons. Foi assim que aprendeu e a partir daí leu tudo o que apanhou a jeito. Foi especial.

Recordo-a a cuidar das suas flores, dos lindos jardins que deixou pelos locais onde permaneceu. Todas as plantas tinham um nome, uma história, uma utilidade. Eram também a sua farmácia. Parte do seu dia era dedicado aos cuidados com o jardim. Com a rega, a monda, a apanha das sementes, as plantinhas novas e o arranjo constante da terra, com as mãos nuas, enrugadas, sensíveis.  Aquelas mãos tinham amor. Lá andava ela, com um chapéu de palha enorme, a guiar rebentos, a apanhar folhas secas, a admirar tanta beleza e a inebriar-se com os perfumes das flores. Atrevo-me a pensar que fui mais uma das flores do seu jardim. A minha infância ficou repartida pelas estações do ano, o adormecer e o acordar da natureza. Nos dias frios ficávamos na cozinha, junto do fogo. A chocolateira de cobre tinha sempre água quente. Em cima da trempe de ferro aparecia uma frigideira velha, preta de tanto uso. Então com as mãos trémulas, punha azeite, cebola às rodelas, depois as batatas cozidas que tinham sobrado do almoço, cortadas fininhas e por fim envolvia tudo com ovos. Que cheirinho! Era um petisco só nosso, temperado com o sabor da ternura, tão delicioso que ainda o sinto. Depois vinha a caneca do chocolate quente. Tudo isto era feito com lentidão, gestos calmos de mãos sábias. Então eu pedia:

- Avó, conta-me uma história.

Ela sorria, com um sorriso doce na boca já sem dentes, olhar brilhante e respondia:

- Qual? Já te contei todas.

Confortada com o calor do lume, aconchegava-me na cadeirinha de palha e o entardecer, ao som da sua voz cadenciada, envolvia-nos com a magia de Era uma vez... Eram princesas, fadas e rainhas, um mundo de sonho para onde era transportada pelo poder da imaginação. Eram as histórias do João de Calais, O Menino Guilherme e o Seu CPiloto, Os Meninos da Estrela de Oiro na Testa, a Branca Flor e tantas, tantas outras que agora recordo com tanto carinho e saudade.

Numa tarde solarenga de Primavera pegou-me pela mão e disse:

- Hoje vamos dar um passeio.

E lá fomos andando pelo rego que trazia a água da ribeira até às hortas. Quando chegámos à ribeira chamou-me a atenção para as paredes de pedra que já tinham sido uma casa. Era quase só um amontoado de pedras e estava tudo cheio de silvas. O ambiente era verde, com lucernas da luz do sol por entre as folhas dos amieiros e dos plátanos. Ouvia-se o som  da água da ribeira a saltitar por entre as pedras polidas e o som da brisa a passar nas folhas. O nosso silêncio foi interrompido pela voz da minha avó:

- Sabes o que era um Pisão? Aqui na ribeira havia muitos. Pareciam dois braços grandes de madeira e com a força da água, batiam, batiam nos tecidos de lã. As mantas vinham dos teares ralinhas, pareciam uma rede, eram pisadas no Pisão, com azeite, água,  depois com greda e água quente para lavar. Ficavam limpas, grossas e quentinhas. Também havia um tecido que era pisado e lavado no Pisão. Chamava-se soriano e servia para fazer roupas quentinhas, calças, casacos e saias. O povo dizia que no Pisão era assim:

Água quente,

Água fria

E vá de pancadaria!

Fiquei a imaginar como seriam os Pisões e o barulho que faziam a bater nos tecidos, de forma ritmada, com os seus dois braços. Ela continuou:

- Aqui havia um Pisão e nesta casa morou a Louca dos Pisões.

Sentámo-nos numa pedra grande e a brincar com as mãos na água preparei-me para ouvir A história da Rosa. Era uma rapariga pobre, linda como os anjos, que se apaixonou pelo José, seu vizinho. Os dois juraram amor eterno, mas não quis o destino que assim fosse. O José vivia com umas tias solteironas, beatas, mas de posses. Entenderam elas que o sobrinho havia de ser padre e mandaram-no para o seminário. O José prometeu à Rosa que nunca chegaria a ser padre e voltaria para ela. Mas foi padre e a Rosa ficou louca com o desgosto. Para sempre ficou à espera que o seu Zé cumprisse a promessa. Conta-se que cada vez que um homem passava pelo estrada, mal o avistava, a Rosa corria feliz a dizer:

- Vem aí o meu Zé.

Mas logo que o engano se desfazia, murmurava cheia de desgosto:

- Ai, não é.

Foi um história comovente e triste que nos trouxe melancolia no regresso a casa.

Um dia estavamos as duas a cuidar das plantas, com as mãos metidas na terra húmida, quando ela me explicou a diferença entre os Brincos de Princesa e Brincos de Rainha. Fui então surpreendida com a fase:

- Sabes? Eu já vi uma rainha.

Naquele nosso mundo povoado de histórias, duendes e fadas, príncipes e princesas pensei que era mais uma. Mas não era assim.

- Pois é minha menina, vi uma rainha de verdade, de carne e osso. Chamava-se Amélia, era muito bonita e com ela vinha um homem muito gordo que era o rei. Passaram ali na Alcaria montados nuns cavalos e foram até ao Correpito. Era tanta gente, ricos e finos, vestidos com roupas que as pessoas daqui nunca tinham visto. O povo veio de longe para os ver passar. Uma mulher atirou uma hortense à rainha, ela apanhou-a no ar, agradeceu com a cabeça e colocou-a debaixo do rabo.

Na minha memória ficou a imagem de uma rainha que não devia ser lá muito bem educada.

Eram assim os nossos dias, as nossas tardes. Momentos de magia onde o imaginário se expandiu para dimensões novas e fantásticas. A minha avó deu-me uma infância feliz, ajudou a construir tudo aquilo que sou.

- Onde quer que estejas avó, quero que saibas que permaneces nas histórias que me contaste e nos momentos em que as partilho com os mais novos.

Jokas da Dinha

 

 

 

 

 

 

sinto-me: Com saudades.

publicado por Maria às 17:03

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